Entenda IAS, CAS, TAS, GS e as principais V-speeds
Quando olhamos para o velocímetro de um avião e vemos, por exemplo, 90 nós, parece natural concluir que aquela é simplesmente a velocidade da aeronave.
Na aviação, porém, a pergunta “qual é a velocidade do avião?” não tem uma única resposta.
Podemos estar falando da velocidade indicada no instrumento, da velocidade efetiva da aeronave em relação à massa de ar, da velocidade em relação ao solo ou ainda de uma velocidade específica utilizada para decolar, subir, aproximar ou respeitar uma limitação estrutural.
É daí que surgem siglas como IAS, CAS, TAS e GS, além das famosas V-speeds: VR, VX, VY, VA, VNE, VFE e muitas outras.
Entender essas velocidades é fundamental não apenas para quem está estudando para a banca da ANAC, mas principalmente para compreender o desempenho da aeronave e tomar decisões corretas durante o voo.
Antes de tudo: nós e pés por minuto
Na aviação, a velocidade horizontal é normalmente expressa em nós, representados por kt.
Um nó corresponde a uma milha náutica por hora:
1 kt = 1 NM/h = 1,852 km/h
Portanto, uma aeronave voando a 100 kt percorre, em relação à referência considerada, aproximadamente 185 km em uma hora.
Já a velocidade vertical — razão de subida ou descida — é normalmente expressa em pés por minuto, ou ft/min.
Uma subida de 500 ft/min, por exemplo, significa que a aeronave ganha aproximadamente 500 pés de altitude a cada minuto.
Mas antes de falarmos das velocidades específicas utilizadas durante o voo, precisamos entender uma diferença fundamental: velocidade em relação a quê?
IAS — Indicated Airspeed
A IAS (Indicated Airspeed), ou velocidade indicada, é aquela que o piloto vê diretamente no velocímetro (airspeed indicator).
Em uma aeronave convencional, essa indicação é obtida a partir da diferença entre a pressão total, captada pelo tubo de Pitot, e a pressão estática, captada pelas tomadas estáticas.
Essa diferença corresponde à pressão dinâmica produzida pelo movimento da aeronave através do ar.
Em termos práticos, a IAS é a velocidade com a qual o piloto mais trabalha durante o voo.
É nela que normalmente são baseadas diversas velocidades operacionais e limitações apresentadas no manual de voo da aeronave.
Quando o piloto diz:
“Vou fazer a aproximação a 65 kt.”
Normalmente está falando de 65 KIAS — Knots Indicated Airspeed.
A IAS é especialmente importante para decolagem, subida, aproximação, pouso, prevenção de estol e observação das limitações estruturais da aeronave.
CAS — Calibrated Airspeed
O sistema Pitot-estático não é perfeito.
A posição das tomadas de pressão, o fluxo de ar ao redor da fuselagem e pequenas imprecisões dos instrumentos podem fazer com que a velocidade apresentada ao piloto não corresponda exatamente ao valor aerodinâmico que se deseja medir.
Por isso existe a CAS (Calibrated Airspeed), ou velocidade calibrada.
De maneira simplificada:
CAS = IAS corrigida dos erros de instrumento e de posição.
Essas correções são determinadas pelo fabricante e podem aparecer nas tabelas do manual de voo da aeronave.
Em algumas condições, especialmente em aeronaves leves e em determinadas faixas de velocidade, a diferença entre IAS e CAS pode ser pequena. Ainda assim, são conceitos diferentes.
TAS — True Airspeed
Agora chegamos a uma distinção muito importante.
A TAS (True Airspeed), ou velocidade verdadeira, representa a velocidade real da aeronave em relação à massa de ar na qual ela está voando.
Por que ela pode ser diferente da IAS?
Porque a densidade do ar varia principalmente com altitude, pressão e temperatura.
À medida que uma aeronave sobe, a densidade do ar geralmente diminui. Para produzir determinada pressão dinâmica, ela precisa se deslocar mais rapidamente através daquela massa de ar menos densa.
Consequentemente, em altitude:
para uma mesma IAS, a TAS tende a ser maior.
Imagine, de forma meramente ilustrativa, que uma aeronave mantenha 100 KIAS em altitude e sua TAS seja 115 kt.
O velocímetro continua indicando aproximadamente 100 kt, mas a aeronave está efetivamente atravessando a massa de ar a cerca de 115 kt.
Essa diferença é particularmente importante no planejamento de voo e na navegação.
GS — Ground Speed
Se a TAS representa a velocidade da aeronave em relação ao ar, a GS (Ground Speed), ou velocidade em relação ao solo, representa a velocidade com que a aeronave efetivamente se desloca sobre a superfície terrestre.
É aqui que entra o vento.
De forma simplificada, considerando vento exatamente de proa ou de cauda:
GS = TAS ± componente do vento
Imagine uma aeronave com:
TAS = 110 kt
Com vento de proa de 20 kt, sua GS será aproximadamente:
110 − 20 = 90 kt
Com vento de cauda de 20 kt:
110 + 20 = 130 kt
A aeronave continua atravessando a massa de ar a 110 kt nos dois casos. O que mudou foi o movimento dessa própria massa de ar em relação ao solo.
Por isso a GS é essencial para calcular tempo de voo, estimado de chegada e consumo de combustível.
Quando o vento possui componente lateral, a situação envolve também correção de deriva e cálculo vetorial, não uma simples soma ou subtração.
Uma maneira simples de visualizar IAS, TAS e GS
Imagine um barco navegando em um rio.
A velocidade do barco em relação à água pode ser comparada, conceitualmente, à TAS.
Mas a própria água está se movimentando em relação à margem. Portanto, a velocidade com que o barco avança em relação à margem será diferente.
Na aeronave acontece algo semelhante:
TAS → aeronave em relação à massa de ar
GS → aeronave em relação ao solo
Já a IAS é uma indicação baseada na pressão dinâmica sentida pela aeronave e apresentada ao piloto pelo sistema Pitot-estático.
Essa distinção ajuda a entender por que um avião pode manter praticamente a mesma IAS durante dois voos e, ainda assim, chegar ao destino em tempos bastante diferentes.
Mach — velocidade em relação ao som
Em aeronaves de maior desempenho também encontramos o número de Mach (M).
Mach não é propriamente uma unidade de velocidade como km/h ou kt. Ele representa uma razão entre a velocidade da aeronave e a velocidade local do som.
Assim:
Mach 1 = velocidade local do som
Mach 0,80 = 80% da velocidade local do som
A velocidade do som varia principalmente com a temperatura do ar, portanto Mach 1 não corresponde sempre ao mesmo valor em nós.
Para o aluno de Piloto Privado voando aeronaves leves, o número de Mach tem pouca aplicação operacional no dia a dia, mas torna-se extremamente importante em aeronaves de alta performance e no voo em grandes altitudes.
Velocidade vertical — VS
Além do deslocamento horizontal, precisamos saber com que rapidez a aeronave está ganhando ou perdendo altitude.
A velocidade vertical ou razão vertical é normalmente apresentada em ft/min.
Por exemplo:
+500 ft/min → subida
−500 ft/min → descida
Ela pode ser observada no VSI (Vertical Speed Indicator), conhecido em português como indicador de velocidade vertical ou variômetro.
É importante não confundir essa sigla VS com a V-speed VS, relacionada à velocidade de estol. O contexto deixa claro de qual delas estamos falando.
E o que são as V-speeds?
Depois de entender as diferentes maneiras de medir velocidade, chegamos às famosas V-speeds.
São velocidades utilizadas como referência para diferentes condições e fases de operação da aeronave.
O “V” vem do francês vitesse, que significa velocidade.
Uma coisa é fundamental:
as V-speeds não são universais.
Os valores dependem da aeronave e, em muitos casos, também de fatores como peso, configuração, altitude e condições operacionais.
Portanto, saber que VX significa velocidade de melhor ângulo de subida é importante, mas isso não significa que VX tenha o mesmo valor em um Cessna 152, um Montaer MC-01 ou qualquer outra aeronave.
O valor correto deve ser consultado no manual de voo, AFM/POH e demais documentos aplicáveis à aeronave.
O material utilizado como referência para este artigo divide as principais V-speeds em velocidades de decolagem, subida, limitações estruturais, flap e trem de pouso, estol e outras referências operacionais.
Velocidades de decolagem
V1 — velocidade de decisão
A V1 é uma velocidade utilizada principalmente em aeronaves multimotoras de transporte e operações em que são calculadas velocidades específicas de decolagem.
De forma simplificada, está relacionada à decisão entre interromper ou prosseguir a decolagem diante de determinadas falhas.
É comum ouvir que “antes da V1 você para e depois da V1 você decola”, mas essa frase é apenas uma simplificação operacional. A definição e utilização exatas de V1 envolvem critérios de desempenho e certificação.
Para o piloto de aeronaves leves, o conceito é importante, embora V1 normalmente não faça parte da operação cotidiana de um monomotor básico de instrução.
VR — velocidade de rotação
VR (Rotation Speed) é a velocidade na qual o piloto inicia a rotação da aeronave para estabelecer a atitude necessária para a decolagem.
É importante perceber que VR não significa necessariamente o instante exato em que as rodas deixam o solo.
É a velocidade para iniciar a rotação.
V2 — velocidade de segurança de decolagem
A V2 (Takeoff Safety Speed) está associada principalmente a aeronaves multimotoras e representa uma referência importante de segurança e desempenho após a decolagem, inclusive considerando a condição de falha de motor prevista pela certificação.
Assim como V1, é um conceito muito mais presente na operação de aeronaves multimotoras e de transporte do que nos monomotores leves utilizados na instrução inicial.
Velocidades de subida
Duas das V-speeds mais importantes para qualquer aluno de PPA são VX e VY.
VX — melhor ângulo de subida
VX é a velocidade de melhor ângulo de subida.
Ela permite obter o maior ganho de altitude para uma determinada distância horizontal percorrida.
Imagine que exista um obstáculo após a pista.
Nesse caso, interessa ganhar bastante altitude antes de chegar até ele.
É aí que VX se torna particularmente relevante.
VX → maior altitude na menor distância horizontal.
VY — melhor razão de subida
VY é a velocidade de melhor razão de subida.
Ela permite obter o maior ganho de altitude em determinado intervalo de tempo.
Portanto:
VX → melhor ganho de altitude por distância
VY → melhor ganho de altitude por tempo
Essa diferença aparentemente pequena é uma das distinções mais importantes para quem começa a estudar performance de aeronaves.
Limitações estruturais e de manobra
VA — velocidade de manobra
A VA (Design Maneuvering Speed) é frequentemente chamada simplesmente de velocidade de manobra.
Ela está relacionada aos limites estruturais da aeronave diante de comandos e cargas aerodinâmicas.
Existe, porém, um detalhe fundamental:
VA varia com o peso da aeronave.
Quanto menor o peso, menor tende a ser a velocidade de manobra correspondente.
Além disso, VA não deve ser interpretada como uma “velocidade mágica” abaixo da qual qualquer movimento de comando ou turbulência será automaticamente seguro. O conceito possui condições específicas de certificação e deve ser entendido de acordo com o manual da aeronave.
VNO — velocidade máxima estrutural de cruzeiro
A VNO (Maximum Structural Cruising Speed) representa o limite superior da faixa normal de operação.
Em velocímetros analógicos tradicionais, ela corresponde ao final do arco verde e início do arco amarelo.
Acima da VNO, a operação deve ocorrer apenas com cautela e em ar calmo, conforme as limitações aplicáveis à aeronave.
VNE — velocidade nunca exceder
A VNE (Never Exceed Speed) é uma das limitações mais importantes da aeronave.
Como o próprio nome diz:
VNE = velocidade que nunca deve ser excedida.
Nos velocímetros convencionais, é indicada pela linha radial vermelha.
Ultrapassar essa velocidade pode expor a aeronave a cargas e fenômenos aerodinâmicos além daqueles para os quais foi certificada, com risco de dano ou falha estrutural.
Velocidades relacionadas aos flaps
VFE — velocidade máxima com flaps estendidos
A VFE (Maximum Flap Extended Speed) representa a velocidade máxima permitida com determinada configuração de flap.
Acima dela, as cargas aerodinâmicas podem exceder os limites do sistema.
Um detalhe importante é que algumas aeronaves possuem diferentes VFE para diferentes posições de flap.
Portanto, mais uma vez, não basta decorar a sigla: é necessário conhecer o manual da aeronave que está sendo voada.
Nos velocímetros analógicos, o arco branco normalmente representa a faixa de operação dos flaps.
Velocidades relacionadas ao trem de pouso
Essas velocidades se aplicam naturalmente às aeronaves com trem retrátil.
VLE — Maximum Landing Gear Extended Speed
É a velocidade máxima permitida para voar com o trem de pouso estendido.
VLO — Landing Gear Operating Speed
É a velocidade máxima permitida para operar o mecanismo do trem, ou seja, estendê-lo ou recolhê-lo.
VLE e VLO podem ter valores diferentes.
Uma aeronave pode, por exemplo, permitir determinada velocidade com o trem já baixado, mas exigir uma velocidade menor durante o processo de extensão ou recolhimento.
Velocidades de estol
Aqui temos uma das partes mais importantes — e frequentemente mal interpretadas — das V-speeds.
VS — velocidade de estol
VS representa uma velocidade de estol definida para determinadas condições.
Mas é importante abandonar uma ideia muito comum entre alunos iniciantes:
o avião não estola simplesmente porque ficou “abaixo da velocidade de estol”.
O estol ocorre quando a asa ultrapassa seu ângulo de ataque crítico.
A velocidade de estol publicada é, portanto, a velocidade associada ao atingimento desse ângulo crítico nas condições especificadas.
Peso, fator de carga, configuração e outros fatores alteram a velocidade na qual o ângulo crítico será atingido.
Por isso, uma aeronave pode estolar a velocidades muito superiores àquela VS publicada, por exemplo durante uma curva com fator de carga elevado.
VS0 — estol em configuração de pouso
A VS0 corresponde à velocidade de estol — ou velocidade mínima de voo estabilizado, conforme a definição de certificação aplicável — na configuração de pouso.
Normalmente envolve flap na configuração prevista para pouso e, quando aplicável, trem baixado.
Nos velocímetros analógicos, a VS0 está associada ao limite inferior do arco branco.
VS1 — estol em configuração especificada
A VS1 corresponde à velocidade de estol ou mínima velocidade de voo estabilizado em uma configuração especificada.
É frequentemente associada, no estudo básico, à configuração “limpa”, mas é mais correto verificar qual configuração é definida pelo fabricante para aquela aeronave.
Outras V-speeds importantes
VMCA — velocidade mínima de controle no ar
A VMCA (Minimum Control Speed Air) é especialmente importante em aeronaves multimotoras.
Está relacionada à velocidade mínima na qual é possível manter o controle direcional da aeronave no ar diante da inoperância do motor crítico, nas condições definidas para sua determinação.
Em muitos aviões multimotores, ela é indicada no velocímetro por uma linha radial vermelha.
VMU — velocidade mínima para deixar o solo
A VMU (Minimum Unstick Speed) representa a menor velocidade na qual a aeronave consegue deixar o solo durante a decolagem nas condições consideradas.
É um parâmetro mais ligado à certificação e ao desempenho de decolagem do que uma velocidade que o piloto de um avião leve normalmente acompanha diretamente durante cada decolagem.
VREF — velocidade de referência para pouso
A VREF (Reference Landing Speed) é uma velocidade de referência utilizada na fase de aproximação/pouso, particularmente em operações de aeronaves de maior porte.
Seu cálculo e aplicação dependem da aeronave e das condições operacionais.
Afinal, qual velocidade o piloto deve observar?
A resposta depende do que ele está tentando saber.
Se quer controlar a aeronave durante decolagem, subida, aproximação ou pouso, normalmente estará muito interessado na IAS e nas V-speeds correspondentes.
Se está planejando a navegação, precisa conhecer a TAS.
Se quer saber quanto tempo levará para chegar ao destino, precisa considerar a GS.
Se está voando uma aeronave de alta performance, o Mach pode se tornar uma referência essencial.
E se precisa determinar se pode estender os flaps, operar o trem, realizar determinada manobra ou continuar acelerando, deverá consultar as V-speeds e limitações específicas daquela aeronave.
Podemos resumir a lógica desta forma:
| Velocidade | O que representa |
|---|---|
| IAS | velocidade indicada no instrumento |
| CAS | IAS corrigida dos erros de instrumento e posição |
| TAS | velocidade real em relação à massa de ar |
| GS | velocidade da aeronave em relação ao solo |
| Mach | relação entre a velocidade da aeronave e a velocidade local do som |
| VX | melhor ângulo de subida |
| VY | melhor razão de subida |
| VA | velocidade de manobra |
| VNO | velocidade máxima estrutural de cruzeiro |
| VNE | velocidade nunca exceder |
| VFE | velocidade máxima com flap estendido |
| VLE | velocidade máxima com trem estendido |
| VLO | velocidade máxima de operação do trem |
| VS / VS0 / VS1 | velocidades relacionadas ao estol/configuração |
| VMCA | velocidade mínima de controle no ar em multimotores |
| VREF | velocidade de referência para pouso |
Mais importante que decorar: entender
Quando começamos a estudar aviação, a quantidade de siglas pode dar a impressão de que aprender velocidades significa decorar uma grande tabela.
Mas existe uma lógica por trás delas.
IAS, CAS, TAS e GS dizem de que maneira estamos medindo ou referenciando a velocidade.
As V-speeds dizem quais velocidades possuem significado operacional ou representam limitações para aquela aeronave.
Quando essa diferença fica clara, as siglas deixam de parecer uma coleção de códigos e começam a formar um sistema bastante coerente.
E existe uma regra que vale mais do que qualquer tabela encontrada na internet:
as velocidades utilizadas no voo devem ser aquelas estabelecidas para a aeronave específica, conforme seu manual de voo e os procedimentos operacionais aplicáveis.
Conte com a Headwind
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