Altimetria na Aviação: o guia completo sobre QNH, QFE, QNE e o funcionamento do altímetro

Parte 2 — QNH, QFE, QNE e quando utilizar cada regulagem

Na primeira parte deste guia entendemos como o altímetro funciona e por que ele depende da pressão atmosférica para indicar a altitude da aeronave.

Agora surge uma pergunta natural:

Se a pressão atmosférica muda constantemente, como o altímetro sabe qual altitude indicar?

A resposta está na regulagem de pressão que o piloto informa ao instrumento.

É justamente daí que surgem as siglas QNH, QFE e QNE. Elas representam diferentes referências de pressão e, consequentemente, diferentes formas de interpretar a posição vertical da aeronave.

Embora muitos alunos tentem decorar suas definições, compreender a lógica por trás dessas regulagens torna o assunto muito mais intuitivo.


Antes de tudo: por que essas siglas começam com a letra "Q"?

A origem dessas siglas remonta aos primeiros anos da radiotelegrafia.

Na época, operadores de rádio utilizavam códigos padronizados iniciados pela letra Q para abreviar perguntas e respostas durante as comunicações.

Diversos desses códigos permanecem em uso até hoje na aviação.

Os mais conhecidos são justamente:

  • QNH
  • QFE
  • QNE

Embora tenham surgido há mais de um século, continuam sendo utilizados internacionalmente, independentemente do idioma falado entre piloto e controlador.


QNH: a regulagem utilizada na maior parte do voo

O QNH é, de longe, a regulagem mais utilizada na aviação civil.

Quando o piloto ajusta o altímetro para o valor do QNH, o instrumento passa a indicar a altitude da aeronave em relação ao nível médio do mar (MSL – Mean Sea Level).

Na prática, isso significa que, ainda no solo, o altímetro deverá indicar aproximadamente a elevação do aeródromo.

Por exemplo, o Aeroporto Estadual Comandante Rolim Adolfo Amaro, em Jundiaí (SBJD), possui elevação de aproximadamente 2.461 pés.

Se o QNH estiver corretamente ajustado, o altímetro deverá indicar um valor muito próximo desse antes mesmo da decolagem.

Essa simples conferência faz parte do cheque pré-voo de praticamente toda aeronave.


Quando utilizar o QNH?

No Brasil, o QNH é utilizado durante praticamente todas as operações realizadas abaixo da altitude de transição.

Isso inclui:

  • táxi;
  • decolagem;
  • subida inicial;
  • voo em rota abaixo da altitude de transição;
  • circuito de tráfego;
  • aproximação;
  • pouso.

Para o aluno de Piloto Privado, praticamente todos os voos de instrução VFR serão realizados utilizando o QNH.


Como obter o QNH?

O piloto pode obter o valor do QNH de diversas formas, entre elas:

  • serviço ATIS, quando disponível;
  • Torre de Controle (TWR);
  • Controle de Aproximação (APP);
  • Rádio (AFIS), nos aeródromos onde houver esse serviço;
  • Meteorologia aeronáutica antes da decolagem.

Sempre que um novo valor de QNH for informado durante o voo, o altímetro deverá ser reajustado.


QFE: altura em relação ao aeródromo

O QFE funciona de maneira diferente.

Quando essa regulagem é utilizada, o altímetro indica zero enquanto a aeronave estiver estacionada no aeródromo de referência.

A partir da decolagem, o instrumento passa a indicar apenas a altura acima daquele aeródromo.

Imagine novamente o aeroporto de Jundiaí.

Sua elevação é de aproximadamente 2.461 pés.

Se o altímetro estiver ajustado para:

  • QNH → indicará cerca de 2.461 pés no solo.
  • QFE → indicará 0 pé.

Após a decolagem, se a aeronave subir 800 pés acima da pista:

  • com QFE, o altímetro indicará 800 pés;
  • com QNH, indicará aproximadamente 3.261 pés.

Ambas as indicações estarão corretas, apenas utilizam referências diferentes.


O QFE é utilizado no Brasil?

Na aviação civil brasileira, o uso do QFE é bastante incomum.

Historicamente, ele foi mais empregado em alguns países europeus e em operações militares, onde a referência ao aeródromo facilitava determinados procedimentos.

Hoje, praticamente todas as operações VFR e IFR no Brasil utilizam o QNH.

Mesmo assim, conhecer o QFE continua sendo importante, pois ele aparece com frequência em provas teóricas e ajuda a compreender a lógica da altimetria.


QNE: a pressão padrão internacional

O QNE corresponde à pressão padrão internacional.

Seu valor é sempre:

1013,25 hPa

ou

29,92 inHg

Ao ajustar essa pressão, todos os pilotos passam a utilizar exatamente a mesma referência, independentemente da pressão atmosférica existente em cada região.

Isso elimina diferenças entre aeronaves e permite manter uma separação vertical padronizada.


O que muda quando utilizamos o QNE?

Quando o altímetro está ajustado para o QNE, ele deixa de indicar altitude em relação ao nível médio do mar.

Nesse momento, a aeronave passa a voar utilizando Níveis de Voo (Flight Levels).

Por exemplo:

  • FL050
  • FL080
  • FL100
  • FL180

Observe que não dizemos mais:

"Altitude de 10.000 pés."

Passamos a dizer:

"Nível de voo um zero zero."

Essa mudança evita que diferenças locais de pressão provoquem erros de separação entre aeronaves que estejam voando em grandes altitudes.


Quando trocar do QNH para o QNE?

Durante a subida, a aeronave utiliza inicialmente o QNH.

Ao atingir a Altitude de Transição (Transition Altitude – TA), o piloto ajusta o altímetro para 1013,25 hPa.

A partir desse momento, a aeronave deixa de voar em altitude e passa a voar em níveis de voo.

Na descida acontece exatamente o contrário.

Ao cruzar o Nível de Transição (Transition Level – TL), o piloto retorna o ajuste para o QNH informado pelo controle.


Altitude de Transição x Nível de Transição

Esses dois conceitos costumam ser confundidos pelos alunos, mas representam momentos diferentes do voo.

Altitude de Transição (TA)

É a altitude durante a subida em que o piloto deixa de utilizar o QNH e passa para o QNE.

Acima dessa altitude, todas as aeronaves passam a utilizar a pressão padrão internacional.


Nível de Transição (TL)

É o primeiro nível de voo disponível para a descida.

Ao cruzá-lo, o piloto abandona o QNE e volta a utilizar o QNH.

Entre a Altitude de Transição e o Nível de Transição existe uma faixa chamada camada de transição (Transition Layer).

Essa separação garante uma margem de segurança entre aeronaves que ainda utilizam altitude e aquelas que já utilizam níveis de voo.


Como isso funciona no Brasil?

Um detalhe importante é que a Altitude de Transição não é igual em todos os países.

Nos Estados Unidos, por exemplo, ela costuma ser de 18.000 pés, conforme ilustrado no material original que serviu de base para este artigo.

No Brasil, entretanto, a Altitude de Transição varia de acordo com a região e com os procedimentos publicados para cada localidade.

Da mesma forma, o Nível de Transição também pode variar em função do QNH existente naquele momento.

Por isso, o piloto deve sempre consultar as cartas aeronáuticas e as publicações oficiais antes do voo.


Comparando QNH, QFE e QNE

A maneira mais fácil de memorizar essas três regulagens é observar qual referência cada uma utiliza.

Regulagem Referência O altímetro indica Principal utilização
QNH Nível médio do mar Altitude Quase todos os voos abaixo da Altitude de Transição
QFE Aeródromo Altura acima do aeródromo Operações específicas e estudo teórico
QNE Pressão padrão (1013,25 hPa) Nível de voo (FL) Voos acima da Altitude de Transição

Uma forma simples de decorar é lembrar que:

  • QNH → Altitude
  • QFE → Altura
  • QNE → Flight Level

Um exemplo prático de voo

Vamos acompanhar um voo hipotético para entender quando cada regulagem é utilizada.

Imagine uma aeronave decolando do Aeroporto de Jundiaí para um voo em direção a Ribeirão Preto.

Antes da partida, o piloto consulta o ATIS e ajusta o altímetro para o QNH informado. Ainda no solo, o instrumento indica aproximadamente a elevação do aeródromo.

Durante a decolagem, subida inicial, navegação em baixa altitude e saída da área de controle, o altímetro permanece ajustado para o QNH, indicando corretamente a altitude em relação ao nível médio do mar.

Ao atingir a Altitude de Transição, o piloto ajusta o altímetro para 1013,25 hPa. A partir desse momento, deixa de voar em altitude e passa a voar em um Nível de Voo, por exemplo, o FL085.

Próximo ao destino, durante a descida, o Controle de Tráfego Aéreo informa o QNH local. Ao cruzar o Nível de Transição, o piloto reajusta o altímetro para esse valor.

Daí em diante, toda a aproximação, circuito e pouso são realizados novamente utilizando o QNH, garantindo que as altitudes indicadas correspondam corretamente ao relevo e à elevação do aeródromo.

Esse ciclo se repete em praticamente todos os voos e mostra por que compreender as diferentes regulagens do altímetro é tão importante para a segurança e a padronização das operações.


O que veremos na próxima parte

Agora que entendemos quando utilizar o QNH, o QFE e o QNE, resta responder a uma pergunta importante:

O que acontece quando o altímetro não indica a altitude correta?

Na última parte deste guia, veremos os principais erros altimétricos, entenderemos como pressão e temperatura influenciam a indicação do instrumento, aprenderemos o conceito de altitude densidade e descobriremos por que dias quentes e aeroportos elevados exigem atenção redobrada do piloto. Também reuniremos as principais pegadinhas sobre altimetria cobradas nas provas da ANAC.